Musical: A história da Broadway

Patricia Marrese, 11 de dezembro de 2018

(Conteúdo produzido para o Blog do Ballet Paula Castro)

Era uma vez um musical

O teatro musical é um gênero do espetáculo onde há uma história a ser contada, mas o diálogo é igualmente necessário como a música que será apresentada. O musical americano, conhecido há muito tempo como Broadway, nasceu há um século e meio, mas construiu sua reputação internacional há menos de 50 anos.

Vale ressaltar que a Broadway atual não é a mesma desde o seu início. No entanto, o que podemos ver é que as inovações de grandes e diferentes compositores, a evolução dos hábitos, o modo de vida da sociedade desde a Primeira Guerra Mundial, o crash de Wall Street em 1929, assim como a visibilidade que os estúdios Hollywood e da Walt Disney trouxeram, abriram a porta para esse gênero artístico e para novas criações cinematográficas, tanto nos EUA como no resto do mundo.

American in Paris (1951), Singin’In The Rain (1952); ambos de Arthur Freed, West Side Story (1957) de Leonard Bernstein, por exemplo, são uma das obras que demonstram o tremendo sucesso de algumas criações americanas até os dias de hoje.

Os compositores da primeira época

A história do teatro musical começa em 1866, quando um empresário procura completar os 3.200 lugares de seu teatro em Nova York. Para isso, ele contrata um grupo de dançarinos franceses desempregados e os faz encenar algumas passagens musicais dançadas – eis que nasce The Black Crook, primeiro espetáculo americano que alterna o teatro e a música com cenas dançadas!

As canções de Irving Berling são conhecidas no mundo e ele será o responsável para a chegada, mais tarde, do jazz nas produções onde as músicas ganham papel fundamental nas peças, assim como a sua função de as utilizar como fio condutor para a narrativa do espetáculo.

Mas é com Jerome Kern que o cenário do teatro musical começará a se transformar. Show Boat, peça escrita em 1927, em parceria com Oscar Hammerstein II, é considerada uma obra de tom mais suave e a própria história contada possui um tom cômico e trágico. Os produtores conseguem colocar em cena personagens mais realistas e canções que aproximam a peça do público, uma vez que falam sobre assuntos até então evitados para não chocar a sociedade da época – uma garantia de sucesso!

A peça ficou em cartaz por 18 meses e recebeu anos mais tarde, três adaptações cinematográficas.

Os anos 20/30 – a idade dourada do teatro musical

A década de 20 é marcada pelo otimismo no palco, uma vez que o público frequentava o teatro com o intuito de aproveitar momentos de lazer e descontração. As histórias que eram lá relatadas misturavam as músicas com os papeis de grandes vedettes.  Essa época também é conhecida pela inserção do jazz na cena musical 😉

Em paralelo à Show Boat, uma peça com números musicais integrados a uma história, o cenário do cinema mudo, presente até então, muda completamente a partir do lançamento do cinema sonoro em 1927. Jazz Singer (1926), de Al Jolson, é um dos primeiros filmes sonoros e coloca em cena um personagem que sabe cantar, mas também interpretar! O sucesso é tremendo e os teatros da Broadway começam a se transformar em um grande cinema.

Para contextualizar historicamente, o período fora marcado por um clima de incerteza depois da quebra da bolsa em 1929 e o cinema sonoro começa a exercer certa pressão na Broadway. O modo de vida, os costumes e a maneira americana de se pensar vão sofrer um profundo impacto. Assim, os compositores desta época começam a escrever obras direcionadas à tela, com um aspecto mais satírico e politicamente “insolente”, abordando os problemas do cotidiano e da vida real.

A década de 40 – a era moderna do musical

O meio artístico, ainda sob efeito das mudanças ocasionadas pelo cinema sonoro, continua a evoluir com uma nova geração de compositores. Mas é em 1943 que nasce um teatro musical que bateria os recordes de popularidade!

Richard Rodgers recebe uma proposta para escrever um novo musical e propôs a ninguém mais e ninguém menos que Oscar Hammerstein para escrever as letras dessa criação.

Assim é criado Oklahoma!, uma obra que vai revolucionar o teatro musical e abrir as portas para novas produções. A particularidade é marcada pela música e pela dança que funcionam como uma narrativa para unir os personagens dentro da história e abordar temas mais completos. Seu sucesso é imediato –  ultrapassando 2.200 representações durante nove anos em cartaz, um prêmio Pulitzer em 1944 e montagens em Londres, Austrália, Nova Zelândia e outros países.

Também é no começo dos anos 40 que começam a surgir os Cast Albuns – gravações de musicais com a voz de cantores já reconhecidos – para divulgar a peça para o público (jovens e adultos). Can-Can, Phantom of the Opera, Wicked e Lion King são exemplos de peças com álbuns originais e até hoje conhecidos.

Os anos 50 – a euforia

O período pós-guerra é caracterizado pelo otimismo nas produções do teatro musical, com títulos que são influenciados pelo modelo integrado de Rodgers e Hammerstein (até hoje populares mundo afora).

No entanto, é com o surgimento do musical em versão filmada, com o suporte da Hollywood, que começam as peças “gravadas”. Elas são realizadas para a tela, mas sua principal característica é o fato de colocar atores já conhecidos do público para os contratos com os estúdios. A história em si é simplista, mas instiga a missão – para os coreógrafos – de criar momentos de diversão dentro da música, a partir de cenas dançadas para entreter o espectador.  São exemplos disso: The Wizard of Oz, An American in Paris, Singin’In The Rain, dentre outros.

A década de 60/70

Este período é marcado pela nova onda do teatro musical, primeiro com o modelo de Rodgers e Hammerstein, que fora baseado na influência da televisão e do rock. As estruturas teatrais, os estilos musicais e os assuntos abordados começam a se alterar e o público jovem passa a ser o foco primordial dessas novas produções.

A inserção do rock vem dos teatros de Nova York, mas pela primeira vez fora do circuito Broadway; o que permite trazer produções “off” para se tornarem “in”. Vale citar o caso de Grease (Jim Jacobs e Warren Casey – 1972), uma peça criada fora da Broadway mas que teve e possui até hoje um enorme sucesso mundo afora.

No entanto, é Stephen Sondheim que vai readequar o gênero do teatro musical, reinventando a maneira de contar uma história sob uma forma não linear, trazendo à tona os problemas da vida moderna. Consequência: obras originais que começam a influenciar as letras e  músicas dos filmes da Disney, como Pocahontas (1995), O Príncipe do Egito (1998) e Encantada.

Os anos 80 até os dias de hoje

Chegamos à globalização e à divulgação do teatro musical que é encenado em diversos países e adaptado para diversos idiomas. O período é marcado pelo suporte dos estúdios da Walt Disney, DreamWorks e Universal Studios que realizam curtas metragens animados para captar um público mais jovem e fidelizar os adultos. É o caso de A Bela e a Fera (1994), O Rei Leão (1997), Alladin (2004) e A Pequena Sereia (2008).

São os conhecidos blockbusters teatrais, onde uma peça é encenada em diversos locais, mas que passa por uma adaptação; segundo a perspectiva cultural e os costumes do público local.

Um exemplo usual é O Fantasma da Ópera, uma obra que tem sua estreia em Londres, em 1986, e na Broadway, em 1988. Ela ainda permanece em cartaz atualmente e possui diversas montagens ao redor do mundo, com uma versão cinematográfica na voz da cantora Sarah Brightmam e a familiar música Music Of The Night – gravada por inúmeros artistas e em diferentes idiomas.

Contudo, a partir de 2000 é o cinema que passa a inspirar e a influenciar o teatro musical e não mais o contrário, como Hairspray (2002) e Billy Elliot (2005). Entramos agora nos chamados juke-boxes musicais. São espetáculos criados sem uma narrativa ao certo, mas que misturam músicas (em geral que vêm do rock) e cantores já conhecidos pelos jovens e adultos, com o intuito de tornar essas peças mais comerciais.

Infelizmente, essas produções não costumam ficar em cartaz por muito tempo, exceto Mamma Mia! que uniu a narrativa do filme Buena Sera, de Mrs. Campbell, com as músicas do grupo ABBA – um sucesso de bilheteria com mais de seis mil encenações.

Acredito que vale lembrar que essa “onda” não exclui o fato de que ainda existe, sim, novas e originais histórias para o teatro musical e a tendência de talvez lançá-las para o cinema, quem sabe?!   Wicked, criado por Stephen Schwartz, é um filme musical que conta a história da chegada de Dorothy ao país de Oz e que depois foi trazido à Broadway (2003) e não o inverso 😊

Referências :

Perroux, Alain, La Comédie Musicale : Mode D’Emploi, L’Avant-Scène Opéra, Paris, 2009

Lempereur, Claire et Marjanian, Nathalie, Le spectacle vivant, Gallimard Jeunesse, Paris, 2012

Deutsch, C. Didier, Broadway: La comédie musicale américaine, Le Castor Astral, New York, 2017

Por Patrícia Marrese

Categorias: Blog

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Patrícia Marrese

Formada em Relações Públicas pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), é praticante de ballet clássico desde os seus sete anos, onde já dançou em escolas de dança, tais como Ballet Paula Castro e Emovere Studio de Dança.

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